A falta de ganho de produtividade e a desigualdade econômica são desafios para o Brasil, alerta Persio Arida

Ex-presidente do BC realizou uma live na semana em que se comemoram os 60 anos de BRDE

Engana-se quem pensa que o enfrentamento da pandemia é um dos últimos desafios que o Brasil terá para enfrentar a curto prazo. O ex-presidente do Banco Central do Brasil e do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), Persio Arida, alertou para as questões que permeiam o assunto durante palestra realizada em parceria com o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul nesta quarta-feira (16). Enquanto alguns países ingressam numa trajetória de abertura pós-pandemia, como os Estados Unidos, outros ainda estão em processos virulentos de contaminação, como Brasil e Índia. Mesmo assim, há um fator em comum entre todos os países: a forte recuperação do preço de commodities. A forte demanda é associada à recuperação econômica, que, na verdade, ainda nem pode ser atribuída ao pós-pandemia – afinal, o Brasil segue com a mesma média de mortes de agosto do ano passado. “A economia está se recuperando com a perspectiva que o problema venha a desaparecer com a vacinação maciça”, projeta o economista. Em alguns países, como os Estados Unidos, a recuperação econômica não só aconteceu plenamente no sentido de reaver as perdas de 2019 como também está levando a um processo inflacionário. Para Arida, aí está próximo grande desafio econômico.

“O que acontece na economia norte-americana é claramente um processo de excesso de estímulo. O estímulo dado para evitar que as econômicas caíssem em uma recessão profunda em 2019 foi adequado, mas continuou, e com o Biden até se intensificou”, afirmou. Com isso, as taxas de desemprego diminuem e os preços sobem. Porém, os sinais de alarme começam mesmo a soar quando os salários seguem o mesmo percurso. A diferença é que preços sobem e caem, enquanto salários estão atrelados a uma flexibilidade nominal, e apenas uma recessão pode fazê-los cair novamente. Portanto, o grande desafio pela frente, excluindo Covid e questões geopolíticas, é o ressurgimento da inflação. “Em algum momento, os bancos centrais têm de esfriar a economia e impedir que a alta no nível dos preços se torne um processo inflacionário consolidado a níveis muito altos. Esse é um momento de frenagem do processo de expansão econômica”, garante.

Arida atribui, ainda, dois problemas principais ao lento crescimento do país: a falta de ganho de produtividade e a desigualdade econômica. Segundo ele, estruturalmente o Brasil sempre alcançou crescimentos abaixo do que deveria, considerando a diversidade da economia, o número de trabalhadores e a qualidade de recursos – e o segredo para reverter esse cenário não está na administração da política monetária, e sim na produtividade. “A agenda de produtividade é muito mais complexa do que a macro tradicional, de bancos centrais, que sobe e abaixa a taxa de juros para manter a inflação sob controle. E ela vem sendo conduzida de maneira errada”. A agenda ideal, para o economista, consiste em aberturas comerciais, privatizações assertivas [quando o controlador do tesouro vende suas companhias e garante mais dinheiro em caixa] e a redução das incertezas jurídicas contratuais existentes no Brasil que costumam minar a propensão aos investimentos.

Outro problema específico que contribui para a entropia brasileira é a desigualdade social. A recuperação pela qual o Brasil passará em 2021 é justificada pela queda do ano passado e o fato não muda a natureza do problema que o Brasil enfrenta. “Os desafios de natureza econômica são como doenças: se não tratamos, eles crescem de tamanho. Eu diria que nossas doenças estão mais agudas do que eram”, sentencia.

A atividade integra a Semana BRDE, conjunto de comemorações pelos 60 anos do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul. A data de criação do banco foi na terça-feira (15), dia marcado pelo anúncio de um plano de desenvolvimento integrado para a região, incluindo o Mato Grosso do Sul.